Segunda-feira, Dezembro 04, 2000

O fim-de-semana em quatro filmes:

Amores, de Domingos de Oliveira
O seu Oliveira sobre de uma séria síndrome de Woody Allen, fazendo um filme aonde tenta de qualquer jeito se transformar no grande diretor nova-iorquino. Todos os elementos estão lá, se você prestar atenção: Diálogos rápidos, milhares de citações, humor autodepreciativo, etc, etc, etc. O problema é que o Allen faz isso bem. Aqui nós temos diálogos inverossímeis e bestas, citações sem propósito e fora de contexto e um humor autodepreciativo extremamente recalcado. A direção é fraquíssima, simplesmente ruim, com uma das piores utilizações de closes na história do cinema. A própria figura do diretor é entediante, com sua voz arrastada de filósofo-bêbado-fracassado. E o seu Oliveira ainda manda umas piadinhas meta-linguísticas imbecis que são o que há. Mas não se desespere: se você estiver vendo a versão em dvd ainda pode conferir o trailer da peça de teatro e ver que as coisas poderiam ser bem piores. Muita pretensão e pouca qualidade.
Nota 0

Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock
Agora sim estamos falando de cinema de verdade. Tio Alfred consegue transformar uma experimentação cinematográfica em blockbuster. Todo mundo já conhece a história, certo? O espectador é transformado em voyer junto com James Stewart que está imobilizado por algumas semanas em frente a janela. Claro que o vizinho do prédio em frente resolve matar a esposa no meio tempo. Um dos melhores filmes do diretor e o preferido do David Lynch. A cópia restaurada não me pareceu muito melhor que a cópia já disponível em VHS, mas esperemos pela versão em DVD.
Nota 10

As Panteras
Somando a situação em que eu e juju nos encontravamos (domingo a tarde, sem carro) e a situação em que o filme se encontrava (no cinema ao lado da minha casa e eu pagando meia com a carteira de estudante) ir ao cinema parecia uma ótima coisa a se fazer. Fui esperando uma bomba, mas fiquei satisfeito em encontrar só meia bomba. Não é o melhor filme do mundo, mas é divertido. Ele é engraçado, não se leva a sério na maior parte do tempo, piadas boas, personagens propositalmente caricatos (destaque pro homem magro, impagável). Pontos negativos? Tem horas que tanta coisa acontece ao mesmo tempo tão rápido que você fica com vontade de vomitar. A bala em câmera lenta não é referência, é plagio. Não existe uma coerência estilística nem de direção. Acho que é mal de diretor de vídeoclip. E é claro, já manjada piadinha meta-linguística logo no começo do filme (o filme do avião).
Nota 5

Clube da Luta, de David Fincher
O Clube da Luta é um filmeco infantil e patético.

Infantil porque, convenhamos, acreditar na salvação da humanidade das garras maléficas do consumismo desenfreado e da alienação com atentados terroristas bobocas é coisa de criança retardada. Novamente, recomendo ler o Hakin Bey que prega uma revolução inteligente. Viva o terrorismo poético e o anarquismo ontológico. E mais, Tyler repudia o consumo, mas não consegue lutar contra a sociedade sem seus casaquinhos de couros estilosos e seu cabelinho com gel. Rebeldia de boutique, enlatada e pasteurizada pro publico americano.

Patético porque... bem, se você não viu o filme pare por aqui, ok? Eu avisei... porque é impossível o roteiro exisitir com os dois protagonistas sendo a mesma pessoa. E assistir o Edward Norton se ensopapando sozinho, rolando no chão e se atirando contra paredes lutando com seu amigo imaginário é muito constrangedor. Tem um livro ótimo do PKD chamado Valis aonde o protagonista é esquizofrênico e se divide em dois personagens, mas a história é possível, sabe porque? Porque o personagem inventa parte dos acontecimentos na cabeça dele, o que não é o que acontece no Clube da Luta. E podemos provar isso quando vemos os flashbacks do Edward Norton sem o Brad Pitt, agindo sozinho. É impossível ele compensar tudo que o Pitt faz.

Pelo menos o David Fincher tem um estilo visual e de direção definido, coisa que não acontece com o supracitado As panteras.
Nota 2