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A Gestalt surgiu
nas primeiras décadas deste século como uma espécie
de resposta ao atomismo psicológico, escola que pregava uma
busca do todo psicológico através da soma de suas
partes mais elementares; o complexo viria pura e simplesmente da
reunião de seus elementos mais simples, era uma escola de
adição. A Escola da Forma dizia o contrário:
não podemos separar as partes de um todo pois dele elas dependem
e não fazem sentido, pelo menos o mesmo, senão enquanto
partes formadoras daquele todo.
Em seu início, havia duas correntes na Gestalt, a dos dualistas
e a dos monistas: os primeiros acreditavam existir uma percepção
mental que diferiria da sensorial. Sendo assim, perceberíamos
os elementos separadamente e só então eles formariam
o todo através de uma ação do espírito,
de uma percepção mental. Um desenho, por exemplo,
não é um todo, mas o que estaria produzindo a forma
total que percebemos, o que ligaria seus elementos seria o espírito.
Encontram-se nessa corrente muitos resquícios do atomismo
psicológico, enquanto que os monistas realmente romperam
com eles, ao sustentarem que as partes dependem mais do todo que
ele destas, que é ele quem as determina. Para os monistas
o esquema da percepção seria, basicamente: estímulos
sensoriais -> forma -> sensação.
Para os monistas, forma e matéria não são separáveis,
os elementos de uma forma não existem em si, singularmente,
isso só seria possível através de abstração.
Todos os elementos aparecem ao mesmo tempo, e um observar um ou
outro, um tomar um ou outro como figura ou fundo tornaria a experiência
diferente. Cada parte é percebida como elemento formador
do todo, pertencente a ele.
A Gestalt como teoria filosófica
Em um âmbito
filosófico (a Gestalt chegou a ser considerada uma 'filosofia
da forma'), pode-se dizer que foi deixado de lado o ego cogito
cartesiano para, como Husserl (que foi, de fato, mestre de Koffka,
um dos papas desta escola), adotar-se um ego cogito cogitatum:
não há uma ruptura entre consciência - ou sensação,
no caso da escola da forma - e mundo. O "resíduo"
a que se pode chegar por uma redução, uma dissecação
do real - ou de uma forma - não é o "eu penso",
mas a correlação entre o eu penso e o objeto de pensamento
(o ego cogito cogitatum). Em suma, não existiria consciência
enquanto tal, mas toda consciência seria consciência
de.
Isso, porém, não se dá de forma separada, como
pretendiam os associacionistas (escola da psicologia que predominou
no século XIX), mas concomitante: tomemos como exemplo um
carro na estrada, seguindo em direção contrária
a você. Para os associacionistas, há um intervencionismo
do pensamento, ou seja, suas sensações lhe dizem que
o carro está diminuindo à medida em que se afasta,
mas, sendo conhecedor das leis da física, ou mesmo já
tendo passado por esta experiência, seu pensamento reagiria,
corrigindo o equívoco. O dado sensorial seria menos real
que a percepção, e interpretado de acordo com a experiência.
Já para a Gestalt, isso tudo aconteceria de uma só
vez e não através da experiência, mas de acordo
com o que é dado na situação em si. Cada vez
seria diferente, se apenas um dos elementos formadores diferisse;
o todo seria o que há de mais importante, o que vale aqui
não é a experiência, todavia o agora e o que
é dado nesse agora. Percebe-se de maneira diferente de acordo
com o contexto em que o objeto/excitante está inserido, nossa
sensação é global e varia dependendo do evento/forma.
Essa foi a concepção que acabou, por assim dizer,
"triunfante" em relação à outra,
e seus defensores, Max Wertheimer, Kurt Koffka e Wolfgang Köhler,
acabaram por se tornar figuras de maior importância na Escola
da Gestalt.
Essa teoria da forma não se manteve apenas dentro dos limites
da psicologia, mas pretendeu se estender à Física
e à Filosofia, admitindo a existência de formas fisiológicas
e de formas físicas, além das formas psicológicas:
as primeiras dizem respeito aos organismos vivos, que funcionariam
do todo para o uno; as células seriam dependentes do organismo
e não o contrário porque este teria a capacidade de
se adaptar. As segundas tratam do mundo físico: este tenderia,
também, a um equilíbrio total, uma busca da boa forma,
mais homogênea e simétrica. Finalmente, as formas psicológicas,
que são colocadas de uma maneira bem materialista: os gestaltistas
não admitem a existência de um espírito, de
alma, mas que tudo se reduz à matéria bruta, sendo
as formas psicológicas o subjetivo das fisiológicas
e estas apenas reduzidas às formas físicas.
Organização Perceptual - Assimilação
e Contraste; Figura e fundo
Somos bombardeados
por estímulos físicos todo o tempo e, para compreendê-los,
formamos organizações perceptuais (termo que se aplica
tanto ao processo de organização quanto ao resultado
em si). Há várias maneiras de se organizar esses estímulos,
e, de fato, o fazemos, mas de tal modo que exista sempre apenas
uma: nunca há dois tipos de organização em
um só momento. Esse empreendimento se dá de maneira
espontânea, inerente ao indivíduo, porém o consciente
pode exercer um papel nesse processo, pois a organização
perceptual ocorre dentro e fora da consciência: se a pessoa
quiser, poderá criá-la conscientemente, mas se não
o fizer, o inconsciente agirá.
Um ponto importante no processo de organização perceptual
é a diferenciação do campo perceptual. A maneira
com que a forma é apresentada pode, por exemplo, suscitar
fenômenos como a associação e o contraste.
O primeiro destes princípios diz respeito a uma homogeneização
das partes da forma a que somos compelidos quando não há
fronteiras entre elas, ou quando não as percebemos. Os contornos
se tornam importantes neste sentido: tendemos a tornar cada parte
homogênea em matéria de luz; a assimilação
pode acontecer quando há proximidade, especialmente quando
estas áreas próximas não estão delimitadas.
Já o contraste consiste em perceber-se uma diferença
maior do que ela realmente é, e ocorre quando há uma
separação das partes, quase de maneira contrária
à assimilação.
Porém deve-se sempre lembrar que, tanto assimilação
como contraste são "regidos" pela organização
perceptual total, podendo, até mesmo haver a ocorrência
dos dois fenômenos em um mesmo objeto, dependendo de, por
exemplo, qual o fundo sob o qual está a figura. Estes dois
conceitos, fundo e figura, são os mais simples da forma de
organização perceptual: em qualquer campo diferenciado,
uma das partes sempre parece "saltar", se salientar em
relação às outras. A ela damos o nome de figura,
sendo o fundo todo o resto.
O que nos permite diferenciá-los, enxergar uma separação
entre ambos é o contorno: uma fronteira física que
mais parece pertencente à figura, conferindo forma a ela.
Se há uma inversão, se a figura passa a parecer fundo
e vice-versa, então o contorno passará, logicamente,
a parecer pertencer à nova figura. A figura sempre parece
possuir o contorno. Se, em uma forma, não fica muito clara
essa separação (sendo que sempre veremos uma parte
como figura e outra como fundo; o que pode não ficar claro
é o que qual das partes é definitivamente), há
uma flutuação, percebemos alternadamente os elementos
como figura e fundo; porém, sempre um de cada vez, e sempre
um. Bom, nesse caso, ao acontecer essa flutuação,
o contorno passa a nos parecer completamente diferente em cada um
dos casos. Pode acontecer, também, de algo ser definido como
figura embora não haja um contorno, uma linha física
que o delimite: esse fenômeno é conhecido como fechamento
e é muito comum, posto que certas formas estão de
uma maneira que nos pareça completa, não cabendo ali
nenhum tipo de modificação; é como se elas
se bastassem, fossem suficientes, enfim, completas em si.
Na determinação de o que é figura e fundo influem
diversos fatores, como tamanho e localização, ou,
caso esses sejam os mesmos, a área que for menor ou mais
fechada. Geralmente, o que pode ser agrupado com mais facilidade,
pareça seguir uma "linha", for mais homogêneo,
ou até mesmo o que for mais conhecido para quem observa (e
aí entra a questão da subjetividade na percepção)
passará a ser visto como a figura. Há até mesmo
a influência do sistema nervoso e outros processos do tipo
nessa determinação.
Figura e fundo são diferenciados não só em
formas visuais, vale lembrar; tendemos a separá-los em todas
as experiências de percepção. Na chamada música
pop, por exemplo, geralmente percebemos a voz do cantor como figura
e o instrumental como fundo, como acompanhamento.
Agrupamento Perceptual - Wertheimer
Pode haver,
e na maioria das vezes há, mais de dois elementos na forma:
nesse caso, o que seria figura? E fundo? Por quê? Max Wertheimer,
tido como o fundador da teoria da Gestalt, propõe em seu
"Raciocínio Visual" certos princípios, a
seguir:
1) Proximidade
Em condições iguais, eventos próximos no tempo
e espaço tenderão a permanecer unidos, formando um
só todo:
OO
OO OO OO OO OO OO
OO OO OO OO OO OO OO
OO OO OO OO OO OO OO
2) Semelhança
Eventos semelhantes se agruparão entre si:
O X O X O X O X O X O X O
O X O X O X O X O X O X O
O X O X O X O X O X O X O
Essa semelhança se dá por intensidade, cor,odor, peso,
tamanho, forma etc. e se dá em igualdade de condições.
3) Semelhança
+ Proximidade
É a simples adição dos dois princípios
anteriores, se em condições iguais:
OO OX XO OO
OO OX XO OO
OO OX XO OO
4) Lei da Boa
Continuidade
É o acompanhamento de uns elementos por outros, de modo que
uma linha ou uma forma continuem em uma direção ou
maneira já conhecidas.
____|____ = ________ |
5) Pregnância
Há formas que parecem se impor em relação às
outras, nos fazendo, por muito tempo, não conseguir ver outra
forma de distribuição:
OO OO OO OO OO OO OO OO OO
OO OO OO OO OO OO OO OO OO
OO OO OO OO OO OO OO OO OO
6) Destino Comum
Há certos elementos que parecem se dirigir a um mesmo lugar,
se destacando de outros que não o pareçam.
7) Persistência
do Agrupamento Original
Em todos as formas, todos os estímulos, os elementos aproximam-se
uns dos outros e tendemos a fazer com que os grupos continuem os
mesmos.
8) Experiência
Passada ou Aprendizagem
É a subjetividade do percebedor: para cada um a percepção
pode ser diferente, de acordo com a experiência do indivíduo,
de acordo com o que ele já viveu ou aprendeu, conheceu. Tomemos
como exemplo um texto qualquer: para um analfabeto ou alguém
que não conheça a língua em questão,
parecerá uma confusã completa, mas, para aquele que
saiba ler ou conheça a língua, parecerá inteiramente
inteligível.
9) Clausura
ou Fechamento
Os elementos de uma forma tendem a se agrupar de modo que formem
uma figura mais total ou fechada.
Conclusão
Essas tendências ou princípios, dependendo de sua intensidade
podem produzir efeitos diferentes, devemos sempre lembrar que, para
a Escola da Forma, o todo não é apenas a soma das
partes, sua essência depende da configuração
das partes.
A partir disso, podemos trazer ainda algumas considerações
e conceitos finais: a transposição das formas, por
exemplo, é de um valor muito grande dentro do que foi dito
no parágrafo anterior; podemos transpor a mesma forma a partir
de elementos diferentes, de modo que a forma original ainda possa
ser reconhecida, como em:
OOXX
OO, XX
ou em uma melodia cujas notas sejam aumentadas todas em um tom,
ou seja, o todo é a configuração de seus elementos,
mas também difere de acordo com os elementos em si. Porém,
não podemos nos esquecer da parte-todo, isto é, que
as partes dependem da natureza do todo.
Por último, vale falar, mais uma vez, sobre a subjetividade
na percepção: deve-se levar em conta a experiência
vivida pelo sujeito, o seu nível de conhecimento ou familiaridade
com o assunto tratado et sic per omnia.
Enfim, a Escola da Gestalt não se limitou apenas à
percepção, mas expandiu suas teorias a várias
áreas de conhecimento, revolucionando a psicologia e influenciando
diretamente muitos pensadores. Pode-se dizer, por exemplo, que o
behaviorismo de Skinner bebe basicamente da fonte da Gestalt.
Esta foi e continua sendo uma escola revolucionária e de
um imenso valor histórico.
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